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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

José Craveirinha


Depoimento autobiográfico, Janeiro de 1977:


"Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Pela parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai fiquei José.

Aonde? Na Av. do Zichacha entre o Alto Mae e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.

Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato. A seguir fui nascendo à medida das circunstancias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: o seu irmão. E a partir de cada nascimento eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe negra.

Nasci ainda mais uma vez no jornal "O Brado Africano". No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noemia de Sousa. Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por causa da minha mãe só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu país tamé'm. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse país, muitas vezes altas horas da noite."

sábado, 4 de agosto de 2007

Dialetos do Brasil


Saiba como surgiram as diferenças regionais do português brasileiro:

.1) Tupi importado: A Amazônia fala de um modo bem diferente do vizinho Nordeste. A razão para isso é que lá quase não houve escravidão de africanos. Predominou a influência do tupi, língua que não era falada pelos índios da região, mas foi importada por jesuítas no processo de evangelização.
.2) Minha tchia: O litoral nordestino recebeu muitos escravos negros, enquanto o interior encheu-se de índios expulsos da costa pelos portugueses. Isso explica algumas diferenças dialetais. No Recôncavo Baiano, o "t" às vezes é pronunciado como se fosse "tch". É o caso de "tia", que soa como "tchia". Ou de "muito", freqüentemente pronunciado "mutcho'". No interior, predomina o "t" seco, dito com a língua atrás dos dentes.
3) Maternidade: A exploração do ouro levou gente do Brasil todo para Minas no século XVIII. Como toda a mão-de-obra se ocupava da mineração, foi necessário criar rotas de comércio para importar comida. Uma delas ligava a zona do minério com o atual Rio Grande do Sul, onde se criavam mulas, via São Paulo. As mulas, que não se reproduzem, eram constantemente importadas para escoar ouro e trazer alimentos. Também espalharam a língua brasileira pelo centro-sul.
.
4) Chiado europeu: Quando a família real portuguesa mudou-se para o Rio, em 1808, fugindo de Napoleão, trouxe 16.000 lusitanos. A cidade tinha 50 mil habitantes. Essa gente toda mudou o jeito de falar carioca. Data daí o chiado no "s", como em "festa", que fica parecendo "feishta". Os portugueses também chiam no "s".
5) Tu e você: Os tropeiros paulistas entraram no Sul no século XVIII pelo interior, passando por Curitiba. O litoral sulista foi ocupado pelo governo português na mesma época com a transferência de imigrantes das Ilhas Açores. A isso se deve a formação de dois dialetos. Na costa, fala-se "tu", como é comum até hoje em Portugal. No interior de Santa Catarina, adota-se o "você", provavelmente espalhado pelos paulistas.
6) Porrrrta: Até o século passado, a cidade de São Paulo falava o dialeto caipira, característico da região de Piracicaba. A principal marca desse sotaque é o "r" muito puxado. A chegada dos migrantes, que vieram com a industrialização, diluiu esse dialeto e criou um novo sotaque paulistano, fruto da combinação de influências estrangeiras e de outras regiões brasileiras.

Dialeto: variedade regional ou social de uma língua; linguajar ( Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa - Folha/Aurélio, 1994/1995, p. 220).

Na "Nova Gramática do Português Contemporâneo" (Celso Cunha e Lindley Cintra), Antenor Nascentes distingue dois grupos de dialetos brasileiros - o do Norte e o do Sul - ocorrendo subdivisões:
a) Dialetos do Norte: o amazônico e o nordestino;
b) Dialetos do Sul: o baiano, o fluminense, o mineiro e o sulista.

sábado, 28 de julho de 2007


Liberdade


Ai que prazer
não cumprir um dever,
ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada.

estudar é nada
o sol doira
sem literatura.
o rio corre bem ou mal,
sem condição original,
como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
a distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa 16-03-1935

sexta-feira, 27 de julho de 2007



Não sei se existe Deus.

Mas se Deus existe

Ele está com toda a certeza

a comer comigo esta farinha

no mesmo prato.


( J. Craveirinha)


Para a muita fome e miséria que

grassa pelo Mundo, perante a

indiferença, o esquecimento e o

desinteresse dos homens e dos

países que, se despendessem um

pouco, apenas um pouco do seu

volumoso orçamento reservado

a armas, guerra, luxos e

opulências, no auxílio aos povos

mais carenciados, melhorariam o

bem estar de muitos e evitariam a

morte de milhões de homens,

mulheres e crianças, indefesas e

inocentes em todo o planeta !...


sábado, 14 de julho de 2007

Vejam que incrível essas esculturas feitas em sabonetes. Fiquei encantada com tanto talento e criatividade!

sábado, 30 de junho de 2007


Oi pessoal, quando passarem por aqui, deixem um comentário, ok?

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Certeza (Fernando Sabino)

De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que precisamos continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar...

Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo...
Da queda um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro...

quarta-feira, 6 de junho de 2007

A fome mata em silêncio

Chorus

Há chorus na noite que ninguém ouve
Como também não entende
A política das flores num canteiro
A forma dançando na sombra
Oculta em sua negra sintaxe

Há dias cinzentos que ninguém canta
Emblemas de teia de aranha
Onde o orvalho cria uma língua de reflexos
E a dor que percute em silêncio
Como
lágrimas numa concha

Tantas coisas passam em branco
Como
o tempo no verso dos calendários
Os jogos de nuvens no crepusculo
As ações da luz que ninguém enxerga
Mas nada conspira contra o impulso supremo

Augusto Contador Borges


UM CÉU SEM ANJOS DE ÁFRICA


Detinha
a menina de cinco anos
tinha pai e tinha mãe
e tinha duas irmãs, Senhor!

Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de retalhos de chita
e fazia duas covinhas de ternura na face
quando sorria, Senhor!

Detinha
a menina de cinco anos
tinha uma filha de ágeis pernas de pano
olhos brilhantes de cabeças de alfinete
e fulvos cabelos de maçarocas maduras
que a febre derradeira da Detinha
não contaminou.

Olhos cerrados suavemente
boneca Detinha dos seus pais
adormeceu de tétano para sempre
mãozinhas postas sobre o peito
um vestido de renda branca
mais um anjo nosso partiu
no adeus silencioso de boneca
verdadeira num fúnebre berço branco
nossa Detinha tão pura na Munhuana
que até ainda não sabia que era mulata.

Oh! África!
Quantos anjos já nasceram das tuas Munhuanas de amor
e quantas Detinhas partiram para sempre dos teus braços
e quantos filhos inocentes deixaram o teu colo maternal
geraram rios e rios de lágrimas no teu rosto escravizado
e dormiram sem pesadelos na vasta solidão
de um coval mínimo de criança infelizmente
sem as duas covinhas na face
quando sorriam, Senhor!
(...)
José Craveirinha

Dorival Caymmi



Marina


Marina, morena, Marina,
você se pintou
Marina, você faça tudo
mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto,
e que é só meu
Marina, você já é bonita
com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei,
já não posso falar
E quando eu me zango, Marina,
não sei perdoar
Eu já desculpei tanta coisa,
você não arranjava outro igual
Desculpe, Marina, morena,
mas eu tô de mal
De mal com você,
de mal com você...

sexta-feira, 1 de junho de 2007

"Os Sete Sapatos Sujos" (Mia Couto)



Não podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos.

À porta da modernidade precisamos de nos descalçar.
Eu contei “Sete Sapatos Sujos” que necessitamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos.
Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:

Primeiro Sapato: A idéia de que os culpados são sempre os outros.

Segundo Sapato: A idéia de que o sucesso não nasce do trabalho.

Terceiro Sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo.

Quarto Sapato: A idéia de que mudar as palavras muda a realidade.

Quinto Sapato: A vergonha de ser pobre e o culto das aparências

Sexto Sapato: A passividade perante a injustiça.

Sétimo Sapato: A idéia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros.

Ferreira Gullar


TRADUZIR-SE


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?

domingo, 22 de abril de 2007

Toca Bonita - Central

Para quem quer entrar em contato com a história da humanidade, venha visitar o centro Arqueológico de Central. Você vai se surpreender com as pinturas rupestres e a beleza da "Toca Bonita".

















Crônica


MINHA CIDADE

Telma Pereira da Silva

Às cinco da manhã, a cidade começa a despertar com o barulho rouco dos carros que chegam para mais um dia de feira. As mulheres acordam cedo para comprarem verduras fresquinhas e aproveitam para pôr a fofoca em dia – distração que ajuda a esquecer os dissabores da vida.

Gente de todas as idades chega dos povoados para apreciar as novidades vindas de fora. Baratas, muito barata: “Duas peças por cinco reais!” grita o camelô da banca de roupas, cercado por uma multidão de mulheres que disputam as peças.

Em frente às bancas de verduras está a “Cesta do Povo”, que mantém a mesma fachada azul e branca da sua inauguração, construída sob uma calçada que inicia rente ao chão e termina com quase três metros de altura - superando a inclinação da rua – onde estão situados botecos e logo atrás, dez elevados degraus levam o homem de volta a um curioso passado no Museu Arqueológico da cidade. Tão visitado por alunos e professores das cidades vizinhas, curiosos de outros estados e países, citado em artigos de revistas e páginas da internet, mas ignorado por grande parte da comunidade local.

Nos bancos da praça vizinha, homens conversam sobre futebol e briga de galo. Crianças correm felizes tropeçando no calçamento irregular e inclinado da rua. Uma delas dá de cara no muro da Câmara de Vereadores, onde funcionários públicos estão reunidos com a direção do sindicato no salão encarpetado de aparência arredondada, para mais uma etapa da luta contra as injustiças dos administradores que não cumprem com o seu dever.

E assim, mais uma manhã chega ao fim, entre buzinas, gritos, conversas. O movimento vai diminuindo deixando na rua apenas a sujeira, o cheiro fétido das frutas e peixes que estragaram sob o sol escaldante.

Um trator desaparece na infinita “Rua da Batedeira” com a carreta lotada de pessoas que vão espremidas entre sacolas e bicicletas, deixando para trás as casas encostadas, cochichando umas com as outras. Agora só se consegue ver o encontro das árvores infrutíferas formando um ângulo agudo.

Nas serenas casas antigas, idosos jogam dominó embaixo das árvores. Escuta-se o choro do vento na tranqüilidade do meio dia.

Essa é a minha cidade. Não fica no centro de lugar nenhum, mas se chama Central e é o epicentro da Arqueologia na Bahia.

quinta-feira, 12 de abril de 2007


POEMA ENJOADINHO

Vinícius de Morais

Filhos...Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como o queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço

Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão. Filho? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!